sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Prelúdio

Sempre, ao iniciar algo, surge a dúvida básica: como começar?
Bem, pra ter menos chance de errar, vou começar de forma simples: escrever apenas o que vier à cabeça. Algumas vezes dá certo. Se bem que... pode também ser desastroso, mas tentarei.

Um dia nublado e frio, feito hoje.
Um rapaz, após uma jornada de trabalho divertida, porém silenciosa e solitária, caminha de volta pra casa, carregando nas costas uma mochila simples, com um livro dentro.
Quieto, instrospectivo, vai andando pelas ruas vazias, ouvindo música e olhando para o chão, perdido em seus pensamentos.
Sente-se como o céu: cinza, incerto, frio, mutável, volátil...
Um fluxo de pensamentos, dos mais variados, passam voando pela sua cabeça, deixando apenas o cansaço e desgaste.
O rapaz anda, apressado.
Quer chegar rapidamente em seu quarto, tomar um banho e comer.
Faminto e com frio, vai deixando pelo caminho todas as lembranças de um expediente incomum, até que resta somente aquela lembrança única, que lhe atormenta incansavelmente.
Todos os pensamentos, ao vê-la chegar, cedem espaço pra que ela preencha todo o íntimo do rapaz e o faça pensar.
O seu objeto de desejo.
Um ser, a seu ver, que mais se aproxima da perfeição, mas que ao mesmo tempo tem mais defeitos que todas as pessoas que conhece. Mas é exatamente essa a mistura. Um equilíbrio delicioso que pode elevar ao prazer e atirar ao inferno do sofrimento.
Um ser que foi capaz de tocar a sua alma e fazê-la desenvolver-se como algo melhor. Um ser que foi capaz de fazê-lo reviver. Um ser que o completou.
Um ser que escorreu por entre seus dedos, feito a branca areia da praia.
Acenda um incenso. Escolha um aroma que lhe agrade. Sinta o prazer que aquilo lhe traz. Tente agarra a fumaça.
Ao lembrar de como foi imprudente, o rapaz se entristece. Uma brisa gelada passa por ele e faz com que se arrepie.
Tenta achar de todas as formas o lugar onde deixou de cultivar preciosa flor. Aquilo que faltou. Aquilo que foi em excesso. Não consegue lembrar de nada. Afinal, não havia tomado todos os cuidados?
Sim, tomou. Tomou todas as precauções.
Sacrificou-se.
Sacrificou tudo aquilo em que acreditava. Derrubou todos os pilares que sustentavam seu mundo, pra liberar espaço, pra investir.
Mudou tudo a sua volta, mas de nada adiantou.
O amado ser se foi, como o vento que leva as flores brancas dos Ipês, deixando a árvore nua, feia, solitária...
No caminho, uma flor cai no ombro do rapaz. Ele a pega, coloca próximo ao nariz e aspira o doce perfume... Efêmero. Delicado.
Olha em volta, procurando o lugar de onde a flor caiu e observa, com espanto, uma enorme árvore, robusta, antiga... Todas as suas flores, que a enfeitavam tanto, estão sendo levadas pelo vento, pra longe. Logo, a poderosa e bela árvore não passará de galhos desnudos, feios e tortuosos.
O rapaz olha, pensativo.
Nesse momento, uma mulher, atingida pelo peso do tempo, para ao seu lado e observa a árvore junto com ele.
Ela sorri e diz, como que para si mesma: "Todas as flores logo irão cair. A bela árvore voltará a ser apenas ela mesma, sem nenhum atrativo. Espero conseguir ver a próxima florada, contemplar esse belo ser coberto de branco e ver novamente as flores serem levadas pelo vento...". Diz e se vai. Caminhando lentamente, apoiada em uma bengala.
O rapaz olha para a mulher. Louca, com certeza. Falando sozinha pela rua. Tão estranha entre os transeuntes...
Mas, não é que tem sabedoria nesse devaneio desproposital?
O rapaz pensa. Conclui por fim que todo o sacrifício valera a pena.
A flor se foi, assim como a areia, mas a árvore permanece, a praia permanece. Existe uma nova possibilidade. Uma oportunidade futura. Uma nova florada.
É doloroso ver o nosso amor partir. É doloroso o vazio que é deixado pra trás. É doloroso ver nosso amor ser feliz com alguém. Mas amar não é desejar a felicidade daquele que amamos?
O rapaz dá uma última olhada na árvore.
No dia seguinte todas as flores já terão deixado seus galhos, mas em sua memória ela continuará bela para sempre.
Em sua memória, todos os bons momentos serão eternizados e as mágoas logo serão esquecidas, levadas pelo vento do tempo.
Em sua memória, o belo sorriso permanecerá fresco, imutável. O doce aroma permanecerá no ar.
O rapaz volta a caminhar. Ao longe, pode ver sua casa, à sua espera.
Uma delicada melancolia o leva de volta ao seu lar.
Uma doce esperança o aguarda no amanhã.
Mas por enquanto, ele apenas caminha...

Um comentário:

Edu disse...

Bela estréia, meu querido.

Só posso dizer que já passei exatamente por isso. E sei como dói.

Mas quando a gente se dá conta do que ficou, a vida fica mais colorida.

Abraços, e fique com Deus.