sábado, 22 de outubro de 2011

Muitas histórias para contar

Santa Cruz - Portugal



Bem, como deu pra perceber eu não preguei o olho o caminho todo, mas no fim isso se provou muito útil pois eu me diverti imenso.

Os filmes estavam péssimos. Além da tela de vídeo ser minúscula na classe turística, não havia nada de muito interessante para ver.

Fala sério, tava passando Água para Elefantes! Junto com a forte turbulência que estava me deixando muito enjoado, tinha a cara do Robert Pattinson todo sofredor na telinha de baixa definição. Eu não consigo mais desvincular a cara dele do homovampiro de crepúsculo e isso estava me deixando a ponto de correr para o banheiro.

Assim, deixei a tela ligada no mapa que mostrava nossa rota e posição atual e fiquei a olhar pela janela no escuro, sem sono e sem nada para fazer.

Depois de um tempo percebi que não era só eu que estava nessa situação, pois o senhor que estava ao meu lado também olhava pela janela. Só que era de madrugada e não dava para ver nem a asa do avião, ou seja, não tinha o que olhar. Desconfiei que ele estava era me encarando e fiquei com medo. Vai saber né? Tudo escuro, monte de gente dormindo...

Até que, pra quebrar o gelo ele puxou assunto e hoje eu sei que aquela foi uma de muitas histórias ricas que eu ia ouvir a viagem toda.

Para não revelar nomes e nem expor ninguém, vou chamar todos os homens de José e todas as mulheres de Maria, diferenciando-os apenas pelo local onde eu os encontrei. Quando os nomes forem esses mesmo, aí eu penso em outra coisa.

Bem, o José do Avião mora no Nordeste, em Recife pelo que me lembro. Tem uma mulher, vários filhos e netos (parei de contar na metade, sério) e uma vida muito pacata.

Ele me contou que já havia viajado por todo o Brasil, desde o sul até o norte, que conheceu muitos lugares lindos, que se apaixonou por muitas mulheres e que agora decidira fazer algo de diferente.

Depois de me contar muitos detalhes pessoais de sua vida, ele me perguntou se era a primeira vez que eu ia a Lisboa e se estava indo a passeio. Dei as respostas e perguntei o mesmo a ele. Foi aí que eu fiquei alegremente surpreso.

O José economizou dinheiro, largou a família em casa, reuniu três amigos (que eu vi no avião também e que não paravam quietos um minuto sequer) e foi curtir a vida adoidado em Lisboa! Disse que nunca tinha ido à Europa e que sempre teve vontade de conhecer Portugal, mas como sua mulher não podia viajar muito fez isso sozinho mesmo com os melhores amigos dele.

Parece cena de filme de sessão da tarde, eu sei. Mas considerem que o José tem mais de sessenta anos, que é aposentado, tem mulher, filhos, netos, responsabilidades e mesmo assim fez isso.

De repente me senti como se eu tivesse os sessenta e ele os vinte e três e meio (vinte e quatro para os indiscretos).

Sempre quando penso em mim no futuro me vejo dentro de um escritório, engravatado, cercado de papéis e com uma janela imensa por detrás onde se vê edifícios e mais edifícios. Até então eu nunca tinha me imaginado com toda aquela idade a realizar sonhos loucos e a me jogar de cabeça em uma aventura.

Ele percebeu minha surpresa e passou a contar muito mais coisas que ele havia visto, ouvido, vivido, experimentado e o mais importante, muitas coisas que ele ainda iria ver e esperava encontrar.

Pra ser bem sincero eu deixei o coração em casa. Estava aflito, preocupado com o que ia acontecer, a pensar nos mínimos detalhes para que nada desse errado e nem tinha tempo pra me lembrar do lugar aonde eu estava a ir e o que eu poderia fazer lá por mim.

Mas assim que ouvi esse homem me dei conta de que talvez eu estivesse a jogar fora os melhores anos da minha vida e a me preocupar EXAGERADAMENTE com todas as coisas. Talvez eu estivesse a gastar minha saúde e minha cabeça nova com preocupações que não traduzem o fim do mundo. São só obstáculos, nada mais.

Tenho certeza que o José não disse pra mulher dele: “tchau baby, volto sei lá quando” e estava tranquilo. Sei que ele provavelmente estava preocupado com o que estaria a acontecer com toda a sua vida no Brasil, mas ele não permitiu que isso estragasse esta oportunidade que, dependendo de como for o futuro para ele ou para nós, poderia ser a última. Pelo contrário, pegou uma malinha minúscula (não passo um fim de semana com o tanto de roupa que aquele homem levou na viagem), catou os amigos e pegou o primeiro avião.

Olha, parabéns Seu José. Acho que todos os anos de experiência lhe mostraram que a vida não é só feita de dores de cabeça e aborrecimentos sem fim. Só terá esse sentido se você quiser.

Me perguntem se agora eu sou um novo homem por ter encontrado e ouvido o Seu José.

Não sou, continuo burramente do mesmo jeito que ele me econtrou naquela aeronave. Mas algo no fundo da minha cabeça ainda insiste com esperança em me dizer pra aproveitar mais o tempo e fazer pequenas coisas que valham a pena, como tirar fotos do mar ou parar para ver as mulheres dos pescadores e suas filhas a tecer redes para seus maridos que estão longe, enquanto cantam canções de saudades.

É... Acho que vou dar uma de Seu José. Só que vou levar mais coisa na mala.










A foto do mar eu mesmo tirei, mas as outras não são daqui. Apenas ilustram aquilo que eu vi e não fotografei por estar preocupado demais.

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