sábado, 22 de outubro de 2011

Muitas histórias para contar

Santa Cruz - Portugal



Bem, como deu pra perceber eu não preguei o olho o caminho todo, mas no fim isso se provou muito útil pois eu me diverti imenso.

Os filmes estavam péssimos. Além da tela de vídeo ser minúscula na classe turística, não havia nada de muito interessante para ver.

Fala sério, tava passando Água para Elefantes! Junto com a forte turbulência que estava me deixando muito enjoado, tinha a cara do Robert Pattinson todo sofredor na telinha de baixa definição. Eu não consigo mais desvincular a cara dele do homovampiro de crepúsculo e isso estava me deixando a ponto de correr para o banheiro.

Assim, deixei a tela ligada no mapa que mostrava nossa rota e posição atual e fiquei a olhar pela janela no escuro, sem sono e sem nada para fazer.

Depois de um tempo percebi que não era só eu que estava nessa situação, pois o senhor que estava ao meu lado também olhava pela janela. Só que era de madrugada e não dava para ver nem a asa do avião, ou seja, não tinha o que olhar. Desconfiei que ele estava era me encarando e fiquei com medo. Vai saber né? Tudo escuro, monte de gente dormindo...

Até que, pra quebrar o gelo ele puxou assunto e hoje eu sei que aquela foi uma de muitas histórias ricas que eu ia ouvir a viagem toda.

Para não revelar nomes e nem expor ninguém, vou chamar todos os homens de José e todas as mulheres de Maria, diferenciando-os apenas pelo local onde eu os encontrei. Quando os nomes forem esses mesmo, aí eu penso em outra coisa.

Bem, o José do Avião mora no Nordeste, em Recife pelo que me lembro. Tem uma mulher, vários filhos e netos (parei de contar na metade, sério) e uma vida muito pacata.

Ele me contou que já havia viajado por todo o Brasil, desde o sul até o norte, que conheceu muitos lugares lindos, que se apaixonou por muitas mulheres e que agora decidira fazer algo de diferente.

Depois de me contar muitos detalhes pessoais de sua vida, ele me perguntou se era a primeira vez que eu ia a Lisboa e se estava indo a passeio. Dei as respostas e perguntei o mesmo a ele. Foi aí que eu fiquei alegremente surpreso.

O José economizou dinheiro, largou a família em casa, reuniu três amigos (que eu vi no avião também e que não paravam quietos um minuto sequer) e foi curtir a vida adoidado em Lisboa! Disse que nunca tinha ido à Europa e que sempre teve vontade de conhecer Portugal, mas como sua mulher não podia viajar muito fez isso sozinho mesmo com os melhores amigos dele.

Parece cena de filme de sessão da tarde, eu sei. Mas considerem que o José tem mais de sessenta anos, que é aposentado, tem mulher, filhos, netos, responsabilidades e mesmo assim fez isso.

De repente me senti como se eu tivesse os sessenta e ele os vinte e três e meio (vinte e quatro para os indiscretos).

Sempre quando penso em mim no futuro me vejo dentro de um escritório, engravatado, cercado de papéis e com uma janela imensa por detrás onde se vê edifícios e mais edifícios. Até então eu nunca tinha me imaginado com toda aquela idade a realizar sonhos loucos e a me jogar de cabeça em uma aventura.

Ele percebeu minha surpresa e passou a contar muito mais coisas que ele havia visto, ouvido, vivido, experimentado e o mais importante, muitas coisas que ele ainda iria ver e esperava encontrar.

Pra ser bem sincero eu deixei o coração em casa. Estava aflito, preocupado com o que ia acontecer, a pensar nos mínimos detalhes para que nada desse errado e nem tinha tempo pra me lembrar do lugar aonde eu estava a ir e o que eu poderia fazer lá por mim.

Mas assim que ouvi esse homem me dei conta de que talvez eu estivesse a jogar fora os melhores anos da minha vida e a me preocupar EXAGERADAMENTE com todas as coisas. Talvez eu estivesse a gastar minha saúde e minha cabeça nova com preocupações que não traduzem o fim do mundo. São só obstáculos, nada mais.

Tenho certeza que o José não disse pra mulher dele: “tchau baby, volto sei lá quando” e estava tranquilo. Sei que ele provavelmente estava preocupado com o que estaria a acontecer com toda a sua vida no Brasil, mas ele não permitiu que isso estragasse esta oportunidade que, dependendo de como for o futuro para ele ou para nós, poderia ser a última. Pelo contrário, pegou uma malinha minúscula (não passo um fim de semana com o tanto de roupa que aquele homem levou na viagem), catou os amigos e pegou o primeiro avião.

Olha, parabéns Seu José. Acho que todos os anos de experiência lhe mostraram que a vida não é só feita de dores de cabeça e aborrecimentos sem fim. Só terá esse sentido se você quiser.

Me perguntem se agora eu sou um novo homem por ter encontrado e ouvido o Seu José.

Não sou, continuo burramente do mesmo jeito que ele me econtrou naquela aeronave. Mas algo no fundo da minha cabeça ainda insiste com esperança em me dizer pra aproveitar mais o tempo e fazer pequenas coisas que valham a pena, como tirar fotos do mar ou parar para ver as mulheres dos pescadores e suas filhas a tecer redes para seus maridos que estão longe, enquanto cantam canções de saudades.

É... Acho que vou dar uma de Seu José. Só que vou levar mais coisa na mala.










A foto do mar eu mesmo tirei, mas as outras não são daqui. Apenas ilustram aquilo que eu vi e não fotografei por estar preocupado demais.

sábado, 10 de setembro de 2011

Nunca voei. Paranóias e expectativas da chegada.

Olá, depois de longos dias e de muita tribulação finalmente eu estou instalado e com internet.

Já viajei muito, tenho muito material para outros posts e muita coisa pra contar, mas como não quero deixar buracos pelo caminho vou seguir o que prometi e dar continuidade ao cronograma.

Bom, eu nunca tinha voado na minha vida. Sempre gostei de aviões e outros equipamentos com essa finalidade, mas nunca tinha entrado em um.

Então se você nunca teve essa experiência não sabe muito o que esperar da coisa. Uns dizem que parecem ônibus de asas enquanto que há outros que afirmam categoricamente que não há nada igual.

Eu, que sempre fui fã de simuladores de aviões, tinha uma vaga idéia do que esperar, mas mais importante do que isso era o medo do que poderia acontecer.

Eu sou uma pessoa um tanto quanto pessimista e trágica, sabe?

Sempre quando viajava sozinho, eu ficava imaginando se algo acontecesse comigo como seria a reação dos meus pais, meu velório, meu enterro e assim por diante. Até o ponto de chegar a sentir tristeza por mim mesmo (loucura absurda) e ter que controlar a paranóia.

Como ultimamente há tantos desastres aéreos por aí, minha cabeça já começou a viajar longe. Se caísse em terra, eu teria uma morte rápida ou dolorosa? Se caísse no mar e eu fosse o único sobrevivente? Eu não sei nadar muito bem... Eu afundaria junto com a aeronave? E diversas outras perguntas povoavam a minha cabeça.

Então, já que a data em que eu precisaria estar em Portugal estava se aproximando, eu tomei coragem e comprei a passagem.

Me diziam que quanto mais próximo da cauda do avião eu estivesse, minhas chances de sobreviver aumentariam consideravelmente, mas com o custo de balançar a viagem toda.

Então eu decidi que valeria mais a pena sacrificar as chances de sobrevivência por um voo mais confortável, já que passaria horas infindáveis voando.  Por isso decidi escolher uma poltrona mais para o meio da aeronave, mas por um acaso do destino (ou não), o meu programa de milhagem me colocou automaticamente na poltrona da janela, da fileira 41. O último assento do avião.

Um sinal? Não soube e decidira ignorar, pelo menos por enquanto, além de trocar por outra no lugar que eu queria, já que ninguém merece cruzar um oceano balançando.

Finda a compra e confirmados os três voos que eu precisaria tomar para chegar em Portugal (três chances, Destino, três chances), fui assistir TV na sala pra passar o tempo.

Os meus canais favoritos são Discovery Channel e NatGeo. Sempre quando eu ligo a TV eu sintonizo nestes primeiro e se não houver nada de interessante eu mudo pra outro.

Entretanto, neste dia em específico eu sintonizei o NatGeo e o programa que estava passando na hora era: “MAYDAY Desastres Aéreos”.

Não era possível. Segundo sinal? Muita coincidência bizarra  no mesmo dia.

Assisti ao programa e depois de suar um pouco frio desenvolvi uma imensa simpatia por ele. Não que eu goste de ver desgraça, mas é interessante ver como todos os desastres permitiram que nossos voos fossem seguros hoje e como a maioria dos acidentes foram causados por negligência e não por defeito no aparelho.

Depois de viajar muito na maionese e aprender muitos detalhes da aviação moderna, comecei a pensar em como seria quando eu chegasse em Portugal (se eu chegasse vivo, claro).

Eu sabia que o aeroporto de Lisboa é enorme e sabia que lá teria gente de todo lugar do mundo. Como eu acharia as minhas malas? Será que a imigração me reteria no aeroporto?

A pessoa que iria me buscar estaria realmente lá? Rezei muito pra que ela não levasse aquelas plaquinhas bregas com nomes. Eu voltaria pra dentro do setor de desembarque fingindo desconhecimento.
   
Além disso tudo, a imagem que eu sempre tive, e que eu acho que muitos ainda tem, é a de um país cheio de gente gordinha, bigoduda, simpática e que come vinho, queijo e bacalhau o dia todo, além de ser dona de padaria.

Isso por que a televisão brasileira nos enche de estereótipos e coloca na nossa cabeça um tipo que geralmente não existe. É o mesmo que pensar que quando se vai pra Alemanha você verá que todo alemão come chucrutes (Sauerkraut) e fala errado, tipo "eu gosto muito desse pãozinha". 

Mas ainda assim eu imaginava que no momento em que eu desembarcasse eu veria Pastéis de Belém por todos os cantos, castelos em cada janela e um mundo totalmente novo, com pessoas falando “ora, pois” a cada segundo.

Lendas são muitas né? Pessoas extremamente educadas, simpáticas, prestativas e que adoram brasileiros, carrões “importados” em cada esquina, estradas maravilhosas e de graça, limpeza, bom cheiro, organização, riquezas, sorrisos etc etc etc.

Então o que eu econtraria lá realmente? Se eu pegasse um taxi, seria um Mercedez? Ele teria Pastéis de Belém no porta luvas? O taxista seria gordinho e vestiria uma boina e uma camisa xadrez?

Se eu dirigisse por uma estrada eu realmente me sentiria no céu como as revistas automotivas brasileiras prometem? Eu comeria bacalhau no almoço e jantar? Tomaria vinho no café da manhã?

Voltaria falando "ora, pois"?

De fato, constatei que a maioria dessas impressões é verdadeira, mas isso eu conto mais pra frente.

No próximo post eu vou narrar o que eu realmente encontrei assim que desci em Lisboa e como foi minha ida até a Ordem dos Advogados de Portugal.

Prometo que não vou deixar tanto tempo entre um post e outro. Vou tentar atualizar o máximo que eu puder.

Então bom fim de semana pra quem lê, bom fim de semana pra quem não lê e voem de avião. É bom pra caramba, mas não fiquem logo atrás da turbina como eu fiquei. As chances de você explodir são enormes e é impossível dormir.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Adiando capítulo

Olá.


Por motivos operacionais (cansaço, preguiça, nervosismo etc) vou adiar o post de hoje.


Entretanto, não vou pular nenhum capítulo e este será postado em breve, assim que eu me instalar.


Boa semana pra quem lê e pra quem não lê também.



sábado, 6 de agosto de 2011

Reunião de documentos. Guerra de papéis.

Burocracia.

Esse termo significa, em linhas gerais, um sistema de administração pública ou privada em que os assuntos são organizados e tratados por escrito, que dependem também da assinatura de vários funcionários. (Fonte: Dicionário Michaelis).

No nosso dia a dia significa mesmo uma “puta falta de sacanagem” com pessoas que não tem paciência pra lidar com tanta frescura e excesso de formalidade.

Aliás, somos obrigados a lidar com ela desde antes de nascer.

Quando uma mamãe está grávida e o médico prevê a necessidade de fazer uma cesariana ele precisa de uma autorização. Claro que não é só dizer um “sim, eu deixo”, mas exige várias formalidades para isso acontecer, como a realização de exames para verificar a real necessidade, a autorização da mãe, a descrição do procedimento etc etc etc. Por isso eu acho que tem gente que já nasce aos berros.

Desde então, nunca mais nos livramos dela.

Na minha profissão é meu dever lidar diariamente com toda e qualquer forma de Burocracia. Parece masoquismo, mas não faço isso por que quero. Sou obrigado a nadar em um mar de papéis e achar uma solução prática pra um problema, com o menor custo para o cliente e finalizar com um sorriso no rosto. 

Particularmente para mim essa última é a parte difícil.

Bem, como eu disse no post anterior a minha contratação se deu em uma situação emergencial. Meu cliente tava precisando de um advogado pra ontem.

Portanto, minha primeira dúvida e desafio foram: é possível um advogado brasileiro advogar em Portugal?

Sim, é possível. Ambos os países tem um acordo de reciprocidade bem antigo onde um profissional daqui pode trabalhar legalmente lá e vice e versa.

Para isso é preciso, entretanto, juntar uma série enorme de documentos para se inscrever lá e se preparar para lidar com a burocracia para obter cada um deles.

Quem estiver interessado, pode ver a lista aqui, mas vai ter que procurar e sentir um pouco da raiva de não achar. To com preguiça: http://www.oa.pt/CD/default.aspx?sidc=31634

Os mais fáceis foram as certidões de nascimento novas, duas delas.

Aqui no Estado de São Paulo nós podemos pedi-las pela internet e o cartório nos manda em casa. Indolor, rápido, pratico e tudo bonitinho.

Mas aqueles que me deram mais trabalho foram o passaporte, a carteira da OAB e uma autorização de um advogado português que cederia seu endereço profissional para eu indicar.

Quem tem passaporte sabe a chatisse que é. Ter que marcar um horário que, dependendo do lugar pode demorar meses para chegar (o meu levou quase um mês), depois levar os documentos, tirar uma foto horrível e assim por diante.

Mas como eu sou muito azarado, o meu teve um pequeno problema.

Durante a checagem de documentos, o funcionário colocou no meu local de nascimento o lugar onde eu moro, mesmo confirmando comigo que eu sou paulistano. E o asno aqui não reparou neste detalhe.

Semanas depois fui buscar o documento, todo feliz, e vejo que estava errado. Naquela hora, na minha cabeça começou a tocar todo o repertório depressivo da Maysa além de bater o desespero, pois a passagem já estava comprada e mudar o horário me custaria uma nota.

Conversando então com a moça que me atendeu neste dia (que estava num mau humor insuportável) perguntei se seria possível a emissão de emergência e ela disse que sim, que em três dias eu poderia ir buscar o novo.

Menos preocupado, fui cobrar da OAB a minha carteira, cuja entrega estava atrasada. Em um post dedicado só a isso vou descrever a odisséia para consegui-la. O importante agora é que o mesmíssimo erro ocorreu. A pessoa que me atendeu errou, eu não notei na hora e só vi quando a carteira e a cédula chegaram.

Neste caso não há possibilidade de pedir emissão de emergência. Para pedir outra eu tenho que peticionar ao presidente da seccional, que terá 30 dias para conceder meu pedido, depois leva mais 90 pra chegar a nova. 120 dias de pura burocracia, ou seja, dá pra eu ir e voltar de PT e a carteira não terá chegado ainda.

Agora eu vou com ela errada mesmo, não tem jeito. Mas como eu sou super sortudo, provavelmente a funcionária portuguesa também vai errar. Então tá tudo certo.

O último foi o mais estranho.

A OAP pede uma fotocópia da autorização de residência no país ou essa autorização do advogado. Mas, para ter uma autorização de residência eu preciso estar inscrito na OAP e comprovar que eu posso trabalhar, ou seja, um paradoxo português dos melhores. Felizmente eles dão esta segunda alternativa.

O advogado português assume uma série de responsabilidades pelo advogado brasileiro, o que torna a procura por um voluntário de boa vontade realmente difícil.

Então, conversando por indicação com um e outro e enviando documentos para comprovar que eu não sou farsante, consegui uma que me desse, gentilmente, essa autorização e se responsabilizasse para receber intimações e comunicados por mim.

No fundo eu concordo com eles, sabe? Se um estrangeiro que eu não conheço ligasse no meu escritório pedindo um favor desses, eu acharia muito estranho e negaria. Mas ela confiou em mim e salvou minha pele.

Haja chocolate pra agradecer. Espero que ela não seja alérgica.

Nesse meio tempo eu falei com pessoas que desligaram o telefone na minha cara, que me chamaram de brasileiro folgado, que ficaram me mandando de um setor pra outro, muitas vezes em cidades diferentes, que me deixaram esperando 40 minutos no interurbano, pessoas que falavam o português mais esquisito que eu já ouvi e que me deixaram no DDI por uma eternidade (desculpe mãe, pela conta de telefone) e também gente que não me conhecia e se virou nos 30 pra me socorrer, mesmo sem ter essa obrigação.

A estes um caloroso muito obrigado. Vocês também fazem parte disso, mas não tenho plantação de cacau em casa. Prometo ser mais original nos presentes.

Depois de tudo isso (são nove documentos que eu tenho que pegar aqui e mais dois lá em PT), com 12 quilos a menos de tanto stress (stress emagrece que é uma beleza, mas faz cair o cabelo), tenho tudo o que eu preciso pra ir.

Acho.

Agora é ficar calmo, estudar um pouco pra estar preparado e fazer as malas.

Estou tão nervoso que nem durmo. Tenho um problema em enfrentar gente que grita comigo a um palmo de distância do meu rosto e sei que alguns portugueses não têm pudores pra dizer o que pensa. Espero que tudo ocorra bem.

O próximo post será menos chato (espero) e também será o último escrito aqui do Brasil. Isso se meu azar tirar férias e permitir.

O título será: Nunca voei. Paranóias e expectativas na chegada.

Pra quem leu desejo um ótimo domingo e ótima semana. Pra quem não leu eu desejo também (um pouco a contragosto, é claro).

Até lá.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Retorno dos mortos, retrospectiva e nova série.

Olá.

Faz realmente muito tempo que não posto nada no blog. Para mim e para quem lê ou leu (existem leitores meus?) esse querido espaço estava morto e sepultado.

Masssss, usando um pouco de necromancia cibernética eu resolvi trazê-lo de volta a vida.

Pra quem acompanha minha vida pessoal desde o começo sabe que muita coisa mudou nesse espaço de tempo. Minha última postagem foi em janeiro de 2009 (o.O). Então é necessário fazer uma pequena atualização pra não deixar quem for ler daqui pra frente perdido no caminho.

Vamos ver...

Em janeiro de 2009 eu estava no meu último ano na faculdade. Aliás, o ano mais complicado de todo o curso, diga-se de passagem.

Estava ansioso, ocupado pensando na minha Tese de Conclusão de Curso, estagiando no Fórum da cidade onde eu morava, preocupado com a prova da OAB que viria logo, namorando, com cabelo faltando, gordo (um demônio) e sem muitas perspectivas.

“Nossa quanta autoestima. E você ainda tinha alguma vontade de viver depois disso?”

Veja bem, não tinha muita alternativa né? Ou a gente vive ou vive. Nesse tempo eu ainda não sabia que tinha forças pra mudar algumas situações na vida que estavam sob meu controle e namorar aliviava um pouco as coisas. Mas isso é tema pra outro post.

Enfim, voltando.

Passou o ano de 2009, eu me formei, tirei nota 10 na TCC que me tirou o sono por meses, não passei na prova da OAB deste ano, continuei no Fórum como conciliador e fiquei no limbo jurídico. Ah, e ainda namorava.

Neste ano eu senti os efeitos de não ter levado a faculdade tão a sério. Nunca fui um aluno exemplar, eram poucas as matérias nas quais eu tirava uma nota boa, eram muitas as matérias nas quais eu me ferrava todo semestre e não era muito querido dos professores.

Mas, antes que alguém solte um sonoro “bem feito”, em minha defesa digo que eu era (e ainda sou) bastante esforçado e tentava compensar isso tudo sentando a bunda na cadeira pra tentar entender as coisas à força.

Então nesse meio tempo eu fiz cursinho pra compensar minhas deficiências, estudei, prestei outro exame e não passei.

Bom, nem preciso dizer o que se passava pela minha cabeça. Ainda no limbo, sem poder atuar profissionalmente, vendo todos os meus colegas de turma com sucesso e eu ficando para trás.

Confesso que não foi nem um pouco fácil. Parece que todos os anos gastos na faculdade foram inúteis.

Estudando feito louco, tive muito apoio da família, amigos e afins. Conheci muita gente legal que sempre me colocou pra cima, me divertiu, me aborreceu e decepcionou, mas que participou.

Conheci um dos lugares que eu mais gosto e que gostaria de voltar pra visitar, que é o Horto Florestal de Rio Claro (recomendo, tá?), fiz coisas que pensei que nunca teria coragem pra fazer, viajei, briguei, perdoei, fui perdoado, ensinei, aprendi... Enfim, vivi intensamente este ano e no final dele, depois de muito tempo e sacrifício veio a recompensa. Passei no famigerado exame e me tornei advogado.

2010 passou e deixou um balanço positivo. As feridas que me foram feitas fecharam e deixaram lições valiosas que vou levar pra vida toda.

Entrou 2011 e minha vida virou de cabeça pra baixo. Saí do Fórum e comecei a trabalhar como advogado. Encontrei clientes por indicação, fiz atendimentos para pessoas que me deixaram pensando em como eu tenho uma vida maravilhosa, briguei (de novo, reparem que eu brigo muito), fui agredido, consegui um emprego, perdi o emprego, viajei e aqui estou escrevendo pra vocês.

Eu atualmente sou advogado, solteiro, com menos cabelo ainda, mas magro (\o/), maduro e com muitas perspectivas e um pouco mais de autoestima.

Claro que tudo não passou de um apanhado beeem superficial e conforme outros posts forem feitos algumas coisas serão abordadas com mais profundidade.

Bom, esse ano ainda me reservou outra surpresa.

Não é novidade pra ninguém que eu desejo continuar meus estudos no exterior, preferencialmente na Europa. Acho que viajar para lá, conviver, estudar e se aperfeiçoar é uma experiência tão rica que quem tiver oportunidade deveria fazê-lo. Então, pensando nisso, decidi deixar meu currículo em sites especializados, na esperança de que algo apareceria.

E não é que apareceu mesmo?

No mês de maio fui contatado por um senhor português super desconfiado que encontrou meu currículo nesse site e que estava precisando de auxílio para este verão, ou seja, de julho até setembro. Naturalmente eu perguntei por que ele não contatou alguém de Portugal, já que esse alguém estaria mais perto dele e, por óbvio, conheceria as leis do país.

Recebi como resposta de que ele havia contratado duas advogadas (da família dele), mas que não estava totalmente satisfeito, pois o problema é relacionado a Direito de Família (minha especialidade) e queria alguém isento e com o currículo que eu apresentava.

Quando a esmola é demais o santo desconfia, né? Meio incrédulo e pensando se tratar de um aproveitador ou psicopata sem noção (neurótico? Só um pouco), eu pedi os dados desse senhor e fui atrás pra ver de quem se tratava. Pra minha surpresa ele pareceu ser uma pessoa idônea e honesta e as duas advogadas que ele mencionou realmente existem e são da família dele.

(Atenção advogados: evitem advogar pra família. Vão por mim, a dor de cabeça é maior que o benefício).

Bem, como prova de boa fé, também disponibilizei algumas informações a meu respeito e referencias, pra ele se pautar.

Neste momento então percebi que a oportunidade não bateu na minha porta. Ela arrombou, deu um tapa na minha cara e gritou “acorrrrrrrrrrdaaaaaaaaaaaaa trouxa! Se você deixar passar essa eu nunca mais apareço”. Então, em atendimento a esse toque tão sutil do destino eu decidi ir.

Entretanto, eu não sou inscrito ainda na Ordem dos Advogados em Portugal. Sem isso, não poderia ajudar meu então cliente. Outra coisa, nunca saí do país e nunca peguei algo tão significativo assim. Portanto, essa viagem ainda vai render boas histórias.

Então, a partir de hoje começa uma série aqui no blog, a primeira desde que ele foi criado.

Contarei com a maior riqueza de detalhes que for possível como será essa empreitada, desde o momento em que eu comecei a me preparar para sair do Brasil (na semana que vêm) até a minha volta. Minhas experiências, impressões, problemas e soluções. Só não esperem um post por dia, pois a finalidade da viagem é trabalhar (uma pena viu).

Leiam, comentem, divulguem, perguntem, me xinguem (estou carente haha) e divirtam-se.

O próximo episódio será: Reunião de documentos. Guerra de papéis. Como foi todo o preparativo de emergência.

Até lá.