O quê? Quase seis meses sem postar? É isso mesmo?
Sim. Infelizmente estive absurdamente ocupado nos últimos
meses e não consegui nem passar aqui pra justificar minha ausência. Entretanto, quem
gosta de ler o blog compareceu novamente que eu sei. As estatísticas do site
revelam muita coisa (sim, eu os vejo por detrás da porta!).
Bem, continuando o que eu escrevi vou responder às muitas perguntas que eu
mesmo fiz no penúltimo post sobre as lendas que ouvimos no estrangeiro sobre
Portugal.
Ah, já de antemão peço desculpas aos grammar nazis pelos erros e incoerências que porventuram possam
aparecer. Aqui eu estou forçosamente a aprender a língua local sem tentar
esquecer de todo a língua da minha terra. Fica uma salada russa muito gostosa,
mas as vezes os mais letrados podem se confundir e não gostar. Então relaxem e
aproveitem.
Vamos lá. Eu desembarquei em Lisboa e, sinceramente, achei
que o avião tinha dado meia volta e aterrado em qualquer aeroporto de São
Paulo. As semelhanças eram muitas, exceto pelo calor que estava em Agosto mesmo
antes das seis da manhã.
Desci, entrei no autocarro do aeroporto e ele nos deixou no
saguão, onde fomos até a fila pra apresentação de documentos. Senti-me no
Brasil outra vez, que coincidência! Um voo proveniente da Angola desceu ao
mesmo tempo e haviam, não sei, talvez umas 250 pessoas na minha frente e só
quatro guichês para atendimento.
O horror despontou e tentou começar a tomar conta de mim,
mas o sono era tanto que eu só fui pra frente a acompanhar o movimento, no
melhor estilo zumbi de ser.
Enquanto isso eu via, com certa invejinha, os europeus e os
diplomatas a passar por um lugar diferente, com guichês eletrónicos e sem fila
nenhuma. Bastava passar o passaporte na maquininha e pronto! Sem sofrimentos ou
perda de tempo. Prometi a mim que um dia chegaria lá.
Após muitas horas, foi a minha vez. A mulher que me atendeu
olhou, olhou, conferiu meus documentos, carimbou meu passaporte (com tinta
invisível, eu acho, pois só aparece um borrão do que deveria ser uma data de
entrada) e eu passei.
Em seguida, perdido e mega ansioso, fui até as esteiras das
malas, morto de vontade de sair logo dali, quando veio a primeira preocupação. As minhas malas são
originalmente vermelhas e o que eu vi eram umas parcialmente negras, raladas e
sem as etiquetas de identificação do seguro. Olhei, coloquei num carrinho, conferi pelas
marcas e pelos cadeados. Passado o mini ataque cardíaco, pareciam ser as minhas.
Já agora mãe, obrigado por me
convencer a não usar malas pretas! Daqui em diante, só malas vermelhas,
amarelas ou verdes e sempre em neon. Não se perdem nunca, mesmo sem as etiquetas inutilmente ultra frágeis.
Sai dali cansado e senti-me aliviado ao ver o José, meu
amigo português que havia prometido me buscar.
Quem me conhece sabe que eu
abomino atrasos, principalmente em situações onde eu realmente dependo da
pessoa, e agradeci muito por ele estar já ali a minha espera.
Foi a primeira vez que nos falamos sem ser ao telefone e ele
teve o gosto de ver a minha cara de paisagem ao perceber que eu não entendia
uma palavra.
- Então, como foi a viagem? (sotaque português).
- Oi? É, eu tenho fome sim. Tenho um pouco de sono também.
Dizem que falamos a mesma língua, mas isso é mentira.
MENTIRA! O Português Europeu e o Brasileiro podem ter muitas coisas em comum na
escrita (quase tudo, na verdade), mas na fala não são a mesma coisa, nem parecidos. Tanto
que, não só o José, mas várias pessoas com quem eu falei depois, sempre me
disseram: eu não entendo o que falas. Fala o Português, e não o Brasileiro com
o qual estás acostumado (sotaque português).
Após conversar comigo bem devagar, como se tivesse tido um derrame, José e eu conseguimos nos entender um pouco e fomos até o carro.
Aí as semelhanças com o Brasil começaram a desaparecer.
O aeroporto impecavelmente limpo, as pessoas comportadas, o
pagamento da taxa do estacionamento totalmente automatizado e, para o deleite
de amigos meus automaníacos que me fazem essa mesma pergunta sempre que podem, sim. A única coisa que eu consegui ver na minha frente
eram carros da Mercedes. Vários deles, na forma de táxi, particulares etc. Aos
montes, mas com um único defeito:
Pois é, bege. Táxis em São Paulo são brancos, no Rio são
amarelos, na maioria das cidades alemãs eles são pretos e aqui... bege. Eu
odeio bege. Não evoca emoção nenhuma, prazer nenhum, atenção nenhuma,
absolutamente nada. Cor da calcinha da Bridget Jones, do tipo level infinito de
brochante. “Ah, mas tem a estrelinha no capô!”. Não importa, ela some no meio
dessa sopa de feijão aguado.
Além disso, mais um mito confirmadíssimo. Os taxistas que
aparentavam ter os seus mais de quarenta anos, todos eles andavam de boina, camisa
xadrez, calças de ganga (jeans) e sapato social. Alguns com bigode, outros com
barba completa. Aliás, cultivar barba aqui é super comum até em cargos de
escritório ou mais formais (aprendam escritórios brasileiros, isso não é
necessariamente desleixo). Fiquei feliz. Odeio me barbear.
Risos a parte, malas no carro, hora de pegar estrada. Mais
um mito confirmado em parte. Exceto o trecho de dentro de Lisboa, onde é
engarrafado e esburacado em alguns pontos, as auto-estradas portuguesas são
maravilhosas. Lisas e rápidas (120km/h de máxima), nos levam a qualquer lugar
desde que estejas disposto a pagar por isso. Portanto gafanhoto, nada de
passeios gratuitos. Quer ir pra qualquer lugar rapidamente? Pagas e andas em no
máximo duas pistas. Três? Só em subidas ou descidas.
A parte boa é o visual. Em Portugal grande parte da energia elétrica
vem de moinhos de vento e estes, no trecho que liga Lisboa à minha cidade,
estão dispostos ao longo de toda a estrada. É muito bonito de se ver.
Também é possível ver, não só neste trecho como também em
outros, moinhos antigos (que serviam pra moer coisas mesmo), casarões, castelos
etc. As viagens começam a valer a pena assim que se entra no carro.
Bem, lembram que eu disse ao José que estava com fome? Paramos
em uma loja de conveniência, já próximos daqui, e lá dentro também haviam
estereótipos vivos. Pessoas a tomar café, ler jornal e a reclamar, as senhoras
atendentes de avental comprido branco, gordinhas e sorridentes.
Pedi uma meia de leite (café com leite) e achei um,
adivinhem, pastel de nata! Um mar deles só naquela vitrine. Senti vontade de
abrir aquilo e passar o dia a comê-los, nadar neles. Um dos meus doces favoritos,
enormes e bem recheados (Habbib´s, aprenda por favor).
Comi devagar,
agradecendo ao Papai do Céu por aquilo ter se confirmado mesmo. E eles são omnipresentes,
viu? Cada café ou pastelaria que se preze tem pra oferecer. Bem que os taxistas
poderiam ter isso no carro também. Eu passaria a adorar andar de táxi.
No fim de tudo, voltamos à estrada (secundária dessa vez) e
chegamos à charmosa, pequena e absolutamente rural vila onde eu moro. Pra quem
veio da cidade, foi um bocado impactante a princípio, mas eu mal sabia que as
pequenas coisas daqui acabariam por arrebatar meu coração.
Isso foi só um resumo das primeiras horas que eu passei cá e
muita coisa aconteceu depois.
Acho que o post ficaria enorme se eu colocasse cada detalhe
aqui, portanto vou colocar aos poucos o que eu achar mais interessante.
Para o próximo capítulo eu ainda não tenho idéia nenhuma. Eu
vejo depois. A única coisa que eu penso agora é comer essa delícia e acho que vou buscar um. Hmmmmmm.

